quinta-feira, 4 de junho de 2009

|06| - Dharavi - A cidade das sombras

Criança andando ao longo do duto de água que cruza o distrito industrial de Dharavi
fotografia: Jonas Bendiksen


Fonte:
JACOBSON, Mark.
A cidade das sombras.
National Geographic Brasil. São Paulo, v. 7, n. 86, p. 72-97, maio 2007.


Para alguns, a favela de Dharavi é uma aberração no centro de Mumbai, a capital financeira da Índia. Para os moradores, é o seu lar.

"Todas as cidades da Índia são estridentes, mas nada se compara ao nível de decibéis de Mumbai, ex-Bombaim, que tem trânsito cerrado e zoada de buzinas 24 horas por dia, de segunda a segunda. O barulho, contudo, não é problema em Dharavi, a apinhada favela de 1 milhão de pessoas, onde cerca de 40 mil almas se espremem a cada hectare. Ao cair da noite, nas entranhas de seu labirinto de vielas, estreitas demais até para os estrepitosos riquixás motorizados, a favela é tão silenciosa como uma clareira na mata. Quando você se acostuma a dividir 28 metros quadrados de chão com 15 humanos e incontáveis camundongos, sobrevém uma estranha sensação de relaxamento: ah, finalmente um momento para pensar em paz.

Muitos chamam Dharavi de "a maior favela da Ásia", uma atribuição duvidosa, que eles às vezes até exageram para "a maior favela do mundo". Não é verdade. O barrio de Neza-Chalco-Itza, na Cidade do México, tem o quádruplo de habitantes. Na Ásia, o distrito de Orangi, em Karachi, ultrapassou Dharavi. Até em Mumbai, onde a metade da crescente população de 12 milhões vive no que eufemisticamente se denomina de habitações "informais", outros bolsões de favelas se equiparam a Dharavi em tamanho e miséria.

Mas Dharavi continua sem igual. Plantada no coração de Mumbai, retém uma influência emocional e histórica equivalente à do Harlem nova-iorquino para seus habitantes: os 2,5 quilômetros quadrados são um centro geográfico, psicológico e espiritual. E os terrenos são muito valorizados por sua localização privilegiada em Mumbai, a cidade que melhor representa a aspiração indiana de se tornar rival da China na economia. Em um planeta no qual metade da humanidade em breve estará vivendo em cidades, as forças que atuam em Dharavi servem de janela para vislumbrarmos o futuro das crescentes cidades da Índia e também do espaço urbano em geral.

Pergunte a qualquer morador antigo - algumas famílias vivem aqui há três ou mais gerações - como Dharavi se tornou o que é, e ele responderá: "Nós a construímos". Não está longe da verdade. Até fins do século 19, esta área de Mumbai era um manguezal pantanoso habitado por pescadores do povo koli. Quando o pântano ficou atulhado com folhas de coqueiro, peixes em decomposição e dejetos humanos, os kolis foram privados de sua área de pesca. Logo se tornariam contrabandistas de bebidas e o espaço ficaria disponível para outros grupos. Os kumbhars chegaram ao estado de Gujarat para estabelecer uma colônia de oleiros. Tâmeis vieram do sul e abriram curtumes. Milhares viajaram de Uttar Pradesh para trabalhar na próspera indústria têxtil. O resultado foi a mais diversificada das favelas, talvez a zona mais diversificada de Mumbai, que é a mais diversificada cidade indiana.

Passe algum tempo na ruela de 1 metro de largura chamada Rajendra Prasad Chawl e você perceberá os ritmos do lugar. O som matinal dos cantos religiosos é seguido pelo de água corrente. Até recentemente, poucos em Dharavi tinham água encanada. Moradores como Meera Singh, uma mulher espirituosa e mordaz que vive nessa rua há 35 anos, precisavam andar mais de 1 quilômetro e meio quando queriam água para a limpeza e a comida do dia. Na distante bica, era preciso pagar aos "capangas" do bairro para encher os baldes. É assim que as coisas funcionam no limbo burocrático da habitação informal. Privados dos serviços públicos porque a lei não chegou até eles, muitos moradores dessas áreas miseráveis ficam à mercê da "máfia da terra". Capangas controlam a água e a eletricidade. Por isso, quem vive em Rajendra Prasad Chawl hoje tem sorte. Quase toda casa improvisou e conseguiu uma torneira. E agora, como fazem todos os dias, os moradores abrem a mangueira para lavar a rua enquanto escovam os dentes em pé na porta de casa.

Dharavi acorda assim. Na rua 90 Pés, nome que supostamente indica sua largura (embora a rua 60 Pés, a outra via principal da favela, seja bem mais larga), os taxistas fazem seus velhos Fiat pegarem no tranco. Na zona dos oleiros, os fornos de meio metro quadrado já arrotam fumaça preta. No imundo canal industrial, os recicladores trabalham a todo vapor. Em Dharavi, nada é considerado lixo. Brinquedos de plástico usados são jogados em moedores, esmigalhados, derretidos e transformados em pelotas multicoloridas, prontas para serem moldadas em forma de Barbies piratas. Cada caixa de papelão e lata de óleo ganha mais uma vida, e depois outra.

As manhãs em Rajendra Prasad Chawl também são movimentadas. Os oito marceneiros a quem Meera Singh aluga parte de seu apartamento saíram para trabalhar, e ela agora penteia seus netos, Atul, 7 anos, Kanchan, 10, e Jyoti, 12. Logo o lar de 15 pessoas ficará quase vazio, apenas com Meera e seu filho Amit, um moço na casa dos 20 anos, de bigode chamativo e cabelo estiloso. Alguns anos atrás, a família Singh, como todo mundo na favela, ligou a TV para ver Abhijit Sawant, o cantor de Dharavi, vencer o primeiro concurso Indian Idol. Mas agora Meera assiste à sua personalidade televisiva favorita, o mestre de ioga Baba Ramdev, de túnica laranja, que demonstra uma técnica antienvelhecimento: esfregar rapidamente as unhas umas contra as outras. "Para que ouvir esse bobão?", menospreza Amit. "Você não sabe nada", Meera esbraveja. "O cabelo dele é preto, e ele tem mais de 80 anos", ela diz. "Oitenta? Ele não passa dos 40. Não caia nessas lorotas."

Meera dá de ombros. Há tempos ela desistiu de tentar fazer Amit criar juízo. "Ele tem a cabeça nas nuvens", diz. Torce para que Amit arranje um emprego como o de seu irmão, Manoj, que costura jeans em uma kaarkhanas, como eles chamam as oficinas de costura que pagam salários de fome em Dharavi. Mas isso não é para ele, diz Amit. Ele é um planejador, "pensa grande". Tamanha vaidade tem como combustível a saga da chegada dos Singh a Dharavi. Seus tios-avôs eram xátrias, a casta apenas superada pela dos brâmanes na hierarquia social indiana. Administravam terras como zamindars, ou senhorios, a mando dos britânicos. Destituída dos privilégios após a independência, a família se mudou de Uttar Pradesh para Mumbai, onde o pai de Amit foi trabalhar nas tecelagens. O colapso das tecelagens nos anos 1970 empurrou a família para Dharavi.

É essa história de acaso e destino ("Cem anos atrás, teríamos sido chefes", diz ele) que infla o ego de Amit. Ele sempre está bolando uma infinidade de projetos: uma pirâmide para vender sabão em pó, um esquema para abrir uma imobiliária, outro para uma agência de empregos. Sem falar em sua firma de dedetização recém-aberta, que ele divulgou distribuindo centenas de folhetos ("Fim dos percevejos! Fim dos ratos!"), nos quais garante ser o dedetizador "de mais confiança em Dharavi", apesar de ainda não ter matado uma só barata.

Nos planos de Amit também está o Janhit Times, um tablóide que ele antevê como o mais ferrenho defensor da democracia das massas. A primeira edição ainda não foi impressa, mas ele já anda com uma vistosa credencial de repórter em sua pilha de cartões comerciais. "É a sua cara: muitos cartões, nenhum negócio", diz a mãe, olhando para ele: "Um sonhador, é o que você é".

Afirmação não contestada por Amit, que acaba de decidir abrir uma locadora de carros para diversificar seu portfólio e ser o Richard Branson de Dharavi, como ele diz, comparando-se ao versátil empresário britânico multibilionário.

"Quando o assunto é dar um jeito nas favelas de Mumbai, ninguém presta atenção. Dharavi, então, é Missão Impossível, um incidente internacional", diz Mukesh Mehta ao entrar na sala de conferência da sede administrativa do estado de Maharashtra. Mehta, arquiteto e designer urbano de 56 anos, burilou durante nove anos seu projeto para "uma Dharavi sustentável, habitada pela classe média". Na reunião de hoje, depois de várias apresentações em PowerPoint, o projeto é entregue para a aprovação oficial do ministro-chefe do estado, Vilasrao Deshmukh.

O plano é dividir Dharavi em cinco setores, cada qual a ser desenvolvido com a participação de investidores, a maioria de indianos não residentes. Inicialmente, 57 mil famílias de Dharavi serão transferidas para prédios de apartamento próximos de sua atual residência. Cada família terá direito a uma habitação de 21 metros quadrados, com encanamento próprio. Em troca de construir esses prédios "de graça", as firmas privadas receberão generosos incentivos para, com fins lucrativos, construir habitações na área da favela e vendê-las pelos (altos) preços de mercado.

"Agora só falta consentirem", Mehta diz a Desh-mukh, um cavalheiro carrancudo de terno alvíssimo sentado com seus assessores à mesa de reunião, de 12 metros de comprimento. Pelos trâmites normais, exige-se que 60% dos moradores de Dharavi aprovem o plano.

Mas Deshmukh declara que não é necessária a autorização formal, pois o plano de Mehta é patrocinado pelo governo. Ele só precisa dar um mês aos moradores para que registrem as queixas. "O prazo de 30 dias, não mais", Deshmukh conclui com impaciência. Mais tarde, com o motorista lutando contra o trânsito em seu Honda Accord, Mehta sorri. "Este é um grande dia", diz, exultante. "É um sonho que se realiza."

À primeira vista, Mehta, que mora em um elegante edifício na abastada Napean Sea Road e é membro antigo do Royal Bombay Yacht Club e do prestigioso clube Bombay Gymkhana, fundado na época do domínio britânico, não parece ser um sonhador interessado em Dharavi. "Nasci em berço de ouro", ele diz em seu escritório, com vista para o mar da Arábia, em West Bandra. "Meu pai veio de Gujarat para Bombaim sem um centavo e construiu uma colossal indústria siderúrgica. Um astrólogo disse a ele que seu filho caçula - eu - seria o mais bem-sucedido e, por isso, sempre me deu tudo." Entre suas vantagens, estiveram uma educação de primeira e uma temporada nos Estados Unidos, onde Mehta estudou arquitetura no Pratt Institute, no Brooklyn.

"Para mim, os Estados Unidos sempre foram a inspiração", declara Mehta, que fez fortuna administrando a siderúrgica de seu pai antes de resolver construir imóveis na rica área de North Shore, em Long Island. "Terra do Grande Gatsby", ele acrescenta, e depois conta como ergueu mansões e viveu em Centre Island, uma comunidade de brancos que eram "os ricos dos ricos" - gente como Billy Joel, que recentemente pôs à venda sua mansão por 37,5 milhões de dólares.

"As favelas eram a última coisa em que eu pensava", diz Mehta. Isso mudou quando ele voltou para Mumbai. Ele viu um lugar habitado por um punhado de ricos, uma imensidão de pobres e quase ninguém no meio. E isso transparecia nas consternadoras condições habitacionais. A cidade se dividia entre arranha-céus de preços estratosféricos, que pontilhavam o perfil de Mumbai ao sul, e áreas pardacentas marcadas no mapa com as letras ZP, de zopadpatti, ou favelas.

Os empresários do centro da cidade esbravejavam: as favelas estavam sufocando a vida da cidade, roubando-lhe seu merecido lugar no século 21. Afinal de contas, a Índia não era mais um atrasado fim de mundo pós-colonial, famoso apenas pelo povo mais miserável da Terra e pelos gurus que fascinavam os crédulos Beatles. Agora, quando um computador sofria uma pane em uma cidade americana, o suporte telefônico vinha de Bangalore. Os economistas estavam fazendo previsões para saber a data exata em que o PIB da Índia superaria o dos Estados Unidos. Mas se Mumbai queria realizar seu destino declarado de ser uma metrópole de classe internacional, rival da próspera Xangai chinesa, como isso poderia acontecer se cada centímetro de espaço a céu aberto era ocupado por aquelas coisas horrorosas, aqueles depósitos de lixo humano, em que ninguém pagava imposto? Para Mukesh Mehta, se a Índia queria se tornar a sociedade de consumo ideal, teria de desenvolver uma verdadeira classe média - e a habitação seria o motor. Era preciso recuperar as favelas.

Mas quais? Havia tantas! A resposta, então, saltou-lhe aos olhos, tão clara quanto o primeiro e inquestionável axioma do mercado imobiliário: localização, localização, localização. Dharavi, bem no meio do mapa. Com exceção dos centros das grandes cidades americanas, ela era uma peculiaridade da geografia e da história, como diria qualquer planejador urbano. Grandes massas de pobres não costumam morar no centro de um município. Em geral, vivem na periferia, amontoadas em prédios populares. No passado, Dharavi situava-se na orla norte da cidade, mas Mumbai, que não parou de crescer, espalhou-se em volta da famosa favela e acabou por cercá-la.

Não era preciso ser mágico para ver as vantagens da posição de Dharavi. Servida por duas ferrovias, está no lugar ideal para a classe média, que todo dia vai de condução trabalhar no centro. Somava-se a isso o advento do Complexo Bandra-Kurla, um centro empresarial internacional situado na margem oposta dos manguezais remanescentes, de acesso fácil para quem está em Dharavi. Asséptico e muito bem cuidado, o complexo era o futuro bem à porta.

"Minha perspectiva inicial foi a de um construtor. Em outras palavras: um mercenário", diz Mehta, diante de imagens de satélite espalhadas em sua mesa. "Mas abri um escritório em Dharavi, comecei a conversar com as pessoas, ver como trabalhavam duro e percebi que eu podia passar meses ali sem ninguém me pedir esmola."

E então, diz Mehta, "fez-se a luz. Perguntei a mim mesmo: por acaso essas pessoas são diferentes do meu pai quando ele chegou a Gujarat? Elas têm os mesmos sonhos. Foi quando decidi dedicar o resto da minha vida a solucionar o problema das favelas. Eu me dei conta de que os moradores de Dharavi são meus verdadeiros heróis".

Em rajendra prasad chawl, a aprovação do plano foi recebida com um pé atrás. Meera Singh mal desviou os olhos da lição de Baba Ramdev. Ela já ouvira muitas histórias sobre a suposta transformação de Dharavi. Nunca acontecera grande coisa. Por que o plano de Mukesh Mehta seria diferente? Além do mais, por que raios ela iria querer se mudar para um apartamento de 21 metros quadrados, mesmo que fosse gratuito? Ela possuía quase 37 metros quadrados. Saía-se bem na "habitação informal". Recebia 1,1 mil rúpias mensais dos marceneiros e outras mil pelo aluguel do porão. Por que abriria mão disso em troca de um prédio de sete andares em que ela vergaria sob as taxas, inclusive a do elevador? Ela detestava entrar em elevadores, tinha pavor.

Amit Singh, o sonhador, foi mais franco. O plano de Mehta não passava de "uma arapuca, ouro de tolo". Amit já estava esboçando um editorial para o Janhit Times exigindo que algum cidadão prendesse "o gângster Mehta".

Em um lugar onde cada sanitário atende a centenas de pessoas (a questão da defecação é um eterno vespeiro na Índia), a perspectiva de possuir um banheiro próprio seria excelente propaganda para o projeto. No verão passado, gurus declararam que a água do ribeirão Mahim, o fétido banheiro público extra-oficial da favela, milagrosamente se tornara "potável", causando traumas intestinais em massa. Nem assim os moradores de Dharavi se empolgaram com a idéia de um W.C. particular.

"Que necessidade eu tenho de um banheiro só meu?", pergunta Nagamma Shilpiri, que veio de Andhra Pradesh para Dharavi há 20 anos e hoje mora com seu pai inválido e outros 13 parentes em dois cômodos de 14 metros quadrados. Sem dúvida, ela se sente constrangida com a falta de privacidade quando se agacha à beira do ribeirão Mahim na névoa da madrugada. Mas fica indignada com a idéia de um vaso sanitário pessoal, com descarga e tudo. Usar tanta água para tão pouca gente lhe parece um desperdício.

Cada morador tinha sua opinião sobre como e por que o plano fora arquitetado para prejudicá-lo pessoalmente. A avaliação mais ponderada foi a de Shaikh Mobin, de 30 anos, que trabalha com reciclagem de plásticos. Mobin sempre morou em Dharavi, mas nunca se considerou um favelado. O negócio de reciclagem, que começou com seu avô, foi assumido por seu pai e passado para Mobin - e fez dele um homem relativamente rico. "É a economia do pós-consumo, que transforma lixo em riqueza", diz ele, que vive com a família em um apartamento com piso de mármore no 13o andar dos Apartamentos Diamond, "o endereço mais prestigiado de Dharavi".

Mobin defende o desenvolvimento de Dharavi. Atividades poluentes não devem ocorrer no centro de uma metrópole moderna. Mobin já faz planos para transferir sua fábrica para um local vários quilômetros ao norte de Dharavi. Mas isso não quer dizer que ele esteja feliz com o que vem ocorrendo no lugar onde nasceu.

Boa parte de sua crítica é bem conhecida. O responsável pela existência das favelas, argumenta Mobin, é o governo, que não cria moradias para a classe média. Muita gente em Dharavi ganha o suficiente para viver em outro lugar, em uma casa "como as da TV". Mas não existem habitações assim, e o jeito é morar na favela. Mobin duvida que as construtoras privadas de Mukesh Mehta resolvam o problema. Por toda Dharavi, há lembretes de desastres imobiliários. Próximos a Cross Road, membros da Associação Habitacional L.P.T. que tiveram suas casas demolidas em preparação para os prometidos apartamentos vivem há oito anos em um prédio inacabado, sem fornecimento regular de eletricidade e água, à mercê de mafiosos e da malária, que grassa no calor de Mumbai.

No fim das contas, diz Mobin, o dilema de Dharavi é ao mesmo tempo mais simples e mais complexo: "Aqui é o nosso lar". Isso é o que gente como Mukesh Mehta e o ministro-chefe Desh-mukh jamais entenderá, reclama Mobin: "Mehta diz que sou seu herói, mas o que é que ele sabe da minha vida? O negócio dele é shaikhchilli: sonhar. Sonhar acordado. Não passa pela cabeça dele que não queremos ser parte do seu sonho?"

Tais sentimentos inquietaram Mukesh Mehta. "Se me chamam de sonhador, eu assumo", ele diz, terminando seu crème caramel no Royal Bombay Yacht Club. É bem verdade que Mehta fez algumas afirmações mirabolantes sobre o futuro de Dharavi. Sua idéia de criar um campo de golfe foi recebida com uma gargalhada geral. "Golfe? Que é golfe?", perguntou o inválido pai de Shilpiri. Pouco tempo atrás, Mehta fantasiava construir na favela um estádio de críquete de 120 mil lugares. Quando lhe perguntaram onde os fãs iriam estacionar, embasbacou. "Ai, meu Deus, o estacionamento!", ele se horrorizou. "Vou passar a noite em claro tentando resolver isso."

Mas ser um sonhador não significa ser "irrealista", ele diz. Mehta já percorreu os emaranhados da burocracia indiana. Aprendeu duras lições pelo caminho. Uma delas é que, "às vezes, a última coisa que os poderosos querem é se livrar das favelas". Boa parte do que Mehta denomina "perpetuação das favelas" está ligada ao infame "banco de votos": um partido político recorre a um arraigado sistema de suborno e açambarca os votos de determinada favela. Enquanto seus moradores continuarem votando certo, será vantagem para o partido manter essa comunidade exatamente como ela está. Um povoado pode permanecer no mesmo lugar por anos, e as habitações vão passando de tendas improvisadas com plástico a barracões de metal corrugado e, finalmente, a casas de concreto. Mas um belo dia, como ocorreu em Dharavi, a favela pode subitamente se ver no lugar "errado". Quando isso acontece, o trator é sempre uma solução. Há alguns anos, o governo de Maharashtra, sob a direção do ministro-chefe Deshmukh, teve um espasmo de fazer melhoramentos para diminuir o abismo que separa a favela do mundo globalizado. Demoliu 60 mil barracos, alguns erguidos havia décadas. Nada menos que 300 mil pessoas foram desalojadas.

Isso é o que seu projeto pretende evitar, garante Mehta: "Ninguém quer ser o desgraçado que dirige o trator". Mehta disse que preferia negociar e que, se alguém não achasse que seu plano era a melhor solução possível para Dharavi, ele se sentaria com essa pessoa o tempo necessário para convencê-la. Poucos dias depois, ele teve sua chance em Kumbharwada, a colônia dos oleiros.

Para muitos, os oleiros kumbhars são a alma e o coração de Dharavi. Seu prestígio deriva não só de morarem ali há décadas mas também da integridade de seu trabalho. Enquanto Dharavi é famosa por dar utilidade ao que todo mundo joga fora, os khumbars criam o novo.

Na família Savdas, há várias gerações de oleiros, mas Tank Ranchhod Savdas chegou a imaginar outro tipo de vida. "Eu tinha sonhos grandiosos", ele conta. "Achava que seria advogado." Mas seu pai morreu em 1986 e Tank, sendo o filho mais velho, assumiu o negócio. Não que ele se arrependa. "Às vezes, faço centenas de potes por dia, e cada um deles me dá prazer", ele diz.

Recentemente, porém, o quarentão "sr. Tank" começou a temer pelo futuro dos khumbars em Dharavi. Um número crescente de rapazes da comunidade está entrando para a marinha mercante ou se tornando especialista em computadores no Complexo Bandra-Kurla. Kumbharwada está cheia de adolescentes que nunca usaram uma roda de oleiro, algo impensável alguns anos atrás.

E agora vem o tal plano, que faz Tank tremer de raiva. Kumbharwada, para ele, é o lar de gente trabalhadora. Esse Mukesh Mehta, que morre de amores pelos Estados Unidos, não vê que Kumbharwada é um perfeito exemplo do suposto sonho americano? "Veja a minha casa", intima Tank, exibindo a casa e oficina de 279 metros quadrados, que ele construiu e hoje divide com seus dois irmãos e respectivas famílias. "Por que deveríamos nos mudar daqui para lá?"

"Lá", para Tank, quer dizer o prédio que a Autoridade para a Reabilitação da Favela (ARF) está construindo atrás de Kumbharwada. Recém-pintado, o edifício parece tinir de novo, mas logo a falta de manutenção o transformará numa réplica dos similares da ARF: um decrépito bloco de estilo stalinista coberto por manchas de mofo. Em seu interior, há um corredor longo e úmido com 18 apartamentos de cada lado, "36 antros de desencanto", como Amit Singh os chama.

"Isso é uma favela", diz Tank. "Uma favela vertical." Ao saber que Mehta se dispôs a conversar com qualquer um que discorde do plano, Tank desafia: "Então o traga aqui. Amanhã".

Ao celular, falando de Hyderabad, Mehta, que não é "avesso ao risco", combina: "Às 10 da manhã". Mas ele duvida que essa reunião leve a alguma coisa. Já falou com os oleiros muitas vezes. Eles recusaram propostas que lhes permitiriam manter boa parte de seu espaço e também rejeitaram a idéia de maximizar seus lucros, fabricando cerâmicas ornamentais, além de seus tradicionais recipientes e objetos religiosos. "Eu lhes ofereci o céu e me retribuíram com indiferença", Mehta lamenta. Além disso, ele nunca sabe quem os pretensos líderes realmente estão representando. É uma situação frustrante, que certa tarde levou o americanizado Mehta a gritar: "O problema é que vocês têm mais chefes do que índios!"

Apesar de tudo, às 10 horas, no pátio defronte à casa de Tank, está Mehta, impecável em seu terno castanho e com abotoaduras cintilantes. Talvez haja cerca de 100 pessoas reunidas. A maioria é de oleiros, mas há outros, como Amit Singh e vários colegas do Janhit Times. Depois de ouvirem educadamente Mehta expor um resumo do projeto (ele trouxe sua apresentação em PowerPoint, mas a claridade do sol impede a exibição), começam as objeções. É revoltante que isso chegue a ser discutido, dizem as pessoas. "Nós fabricamos potes há 130 anos", grita um homem. "Esta terra é nossa."

Mehta compreende a posição dos kumbhars. Mas existem certas "realidades" que eles têm de entender. Primeiro: é errado supor que a comunidade tem direito ao terreno da Kumbharwada pela lei da posse de terras devolutas, que é da época do domínio britânico. Mehta afirma que o arrendamento de longo prazo dos kumbhars expirou quando a lei foi revogada, em 1974. Além disso, há a poluição. Diariamente os fornos de tijolo dos oleiros lançam imensas nuvens negras no ar. A situação chegou a tal ponto que o Hospital Sion, perto dali, queixa-se de que a fumaça está agravando as doenças pulmonares de seus pacientes.

Os kumbhars ficam em posição vulnerável por causa desses problemas. O ministro-chefe Desh-mukh não infringiria a lei se mandasse os temidos tratores para a rua 90 Pés. Os khumbars deveriam confiar nele, diz Mehta: "Disseram que, se eu viesse, seria bom usar capacete. Mas, como vocês podem ver, vim sem proteção". No mínimo, os kumbhars deveriam lhe permitir fazer o recenseamento da área. Tais informações o ajudariam a lutar por eles, conseguir o melhor acordo. Com a volta das chuvas do fim da monção, a sessão é encerrada. Mehta volta otimista para seu carro com motorista. "Uma boa reunião", comenta. O fato de os kumbahrs parecerem concordar com o recenseamento era um bom sinal.

De volta a Kumbharwada, pergunto a Tank Savdas o que ele aprendeu com a reunião. Rodeado por cerca de 20 oleiros, Tank responde: "Aprendemos que o plano de Mukesh Mehta não tem utilidade para nós". Eles participariam do censo? "Vamos pensar no caso", diz.

Seja como for, não há tempo para falar sobre isso. A reunião demorou duas horas. Encomendas acumuladas indicam que é hora de trabalhar.

O plano de mukesh mehta tem início marcado para este ano, mas Dharavi não está muito preocupada com isso agora porque é feriado. Hoje é o dia de Ganesh Chaturthi, e boa parte da favela (pelo menos os hindus) está nas ruas para homenagear o Senhor Ganesh. Batem tambores gigantescos e atroam os ares com músicas inspiradas em Bollywood, saídas de alto-falantes ligados na bateria dos carros. Ganesh, o gorducho deus-elefante, tem importância especial em Dharavi: é considerado a deidade que "remove obstáculos".

Um obstáculo logo aparece na parada que marca o fim dos dez dias de festival, para o qual as pessoas fazem gigantescos murtis, ou representações do deus. Essas efígies são levadas pelas ruas até a praia de Mahim e jogadas na água. Um grupo construiu um Ganesh de 3 metros de altura com papel machê. Só que não se deu ao trabalho de medir a largura da viela por onde ele teria de passar até chegar a Main Road, a rua principal de Dharavi. Após muita discussão e uma tortuosa jornada de 15 metros, durante a qual precisaram ser removidos muitos "obstáculos", entre eles um emaranhado de fios de ligações elétricas clandestinas, o deus-elefante consegue atravessar, com pouco mais de meio centímetro de folga. Nenhum arranhão maculou sua pele prateada.

Quando Ganesh é posto na carroceria aberta de um caminhão para sua jornada até a praia de Mahim, um morador comenta comigo: "Viu só? Ganesh está ileso! Esse é o nosso talento. Lidamos com o que encontramos pela frente"."

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