quinta-feira, 21 de maio de 2009

|06| - O nascimento de Dharavi



Trecho extraído do livro:
Rediscovering Dharavi - Stories from Asia's largest slum (New Delhi - 2000)
SHARMA, Kalpana
Traduzido por Thiago Canhos Montmorency


"No imaginário popular, Dharavi é um lugar sujo aonde milhares de pessoas vivem em condições subumanas ausente de serviços básicos e profilático de doenças. Em parte pode estar correto – mas é muito mais do que isso. Na verdade, Dharavi é uma comunidade com quase 1 milhão de pessoas espalhadas em 175 hectares ( há uma diferença entre os números ‘oficiais’ e ‘não-oficiais’ devido a grande proporção da população flutuante), num complexo conjunto de comunidades peculiares. Às vezes a linha divisória entre essas comunidades pode ser uma nallah (córrego), uma pequena rua ou um muro – construído apressadamente em tempos de conflito.

A verdadeira linha divisória é desenhada através da história da migração ocorrida na cidade de Mumbai sobre as políticas de Estado que lidaram com os pobres urbanos e as indústrias que transmigraram aldeias com sua cultura (religião, língua) para um ambiente urbano.

Dharavi não nasceu ontem. Não é uma ‘favela’ no que se refere a ilegalidade da posse ou assentamento informal de pobres urbanos como achamos em cada cidade indiana. Ela já existia ainda quando Mumbai era chamada Bombay, na Baía de Mahim quando a cidade era ainda compreendida por sete ilhas.

Em 1909, na Gazeta da Cidade e Ilha de Bombay, Dharavi é mencionada como uma das ‘seis Koliwadas (comunidade nativa) de Bombay’, ou seja, uma das comunidades de pescadores. Os habitantes originais de Dharavi eram os Kolis, pescadores que viveram na beira da Baía Mahim do Mar Arábico.

Desde o início do século XVIII, por acidente e desenho, alguns dos pântanos e as salinas que separavam as ilhas que formavam Bombay secaram. O dique de Sion (onde atualmente localiza-se a estação de trem Sion), que era adjacente a Dharavi, acelerou o processo de assoreamento e as conexões das ilhas. Assim os pescadores de Dharavi foram privados de sua tradicional fonte de sustento e a terra recém emergida dava espaço para novas comunidades.

A história do desenvolvimento de Dharavi está intimamente ligado com os fluxos migratórios que marcaram a cidade de Mumbai. Os imigrantes podiam ser divididos aproximadamente em duas grandes categorias. Os primeiros eram as pessoas advindas do Estado de Maharashtra, em particular da costa de Konkan, e também alguns grupos do Estado de Gujarat. Essas comunidades primeiramente se fixaram em terrenos vazios ao sul de Bombay. Com o crescimento da cidade, as autoridades não poderiam tolerar a existência desses assentamentos informais. Todas as comunidades foram expulsas do sul de Bombay para a borda da cidade, na época – Dharavi. Assim, os ceramistas de Saurashtra que habitavam o sul de Bombay tiveram que se relocar duas vezes antes de se fixarem nas terras de Dharavi para estabelecer o que hoje é chamada de Kumbharwada. Como resultado, uma parte da história de Dharavi está intimamente ligada com as políticas de Estado de erradicação – tal política de perseguição continua até hoje, mas de uma forma modificada.

Outros migrantes foram diretamente para a cidade e muitos deles formaram o comércio de Bombay. Os Mulçumanos couristas do Estado de Tamil Nadu migraram para Dharavi e estabeleceram a indústria de couro, uma vez que o abatedor estava nos seus arredores, em Bandra. Outros artesões, como os alfaiates de Uttar Pradesh, iniciaram o serviço de pronta-entrega ao comércio da alta costura. Do Estado de Tamil Nadu, trabalhadores aderiram ao florescente negócio dos saborosos doces chakli, chiki e mysore pak.

Dessa forma, hoje Dharavi é um surpreendente mosaico de aldeias e vilas de toda a Índia. Tanto os Kolis e como os novos migrantes desenvolviam e valorizavam as suas próprias culturas. A indústria de peles cresceu para um próspero comércio exportador de couro. Atualmente, poucos velhos artesões couristas existem, mas se pode ver na avenida principal de Dharavi as efervescentes lojas de couros. Em pouco tempo os fabricantes de vestuários, que equiparam suas casas com algumas máquinas, expandiam suas unidades em direção ao mercado exportador.

Enquanto Dharavi estava na borda da cidade de Bombay, as autoridades da cidade podiam ignorar sua existência. Era um local adequado para receber comunidades ‘ilegais’ de outras partes. Como Bombay se expandiu no século XIX e a população cresceu junto com as incipientes indústrias, como a têxtil, aumentou a pressão sobre a terra. A cidade começou a sua expanção para o Norte. Como resultado Dharavi tornou-se muito mais central, não estava mais na borda da cidade. Ironicamente, o assentamento no formato do coração é agora localizado literalmente no coração de Mumbai.

Acidentalmente essa nova e importante locação de Dharavi tem sido crucial para o seu recente desenvolvimento. A importância de Dharavi foi finalmente reconhecida em meados dos anos 80. Como resultado, o governo desmontou o comércio ilegal de licor e cerveja (até então, o governo cego deixou crescer a ilegalidade embaixo de seu nariz) e, pela primeira vez, recursos financeiros foram oferecidos para fazer o lugar mais habitável. Numa visita a Bombay, durante um Congresso centenário em 1985, o então Primeiro Ministro, Rajiv Gabdhi visitou Dharavi e sancionou a quantia de 1 bilhão de Rúpias para Bombay, da qual substancial quantia foi encaminhada para Dharavi. Foi a primeira tentativa de reabilitação.

Assim começou a transformação de Dharavi, embora superficial. O aparecimento acelerado de edifícios altos na periferia de Dharavi, durante os últimos anos da década de 90, foi lançado pelo partido do governo de Shiv Sena-Bharativa Janata. Se o projeto tivesse sido melhor concebido seria possível que muitos outros edifícios fossem construídos até o ano 2000. Os projetos mais bem sucedidos foram aqueles em que as comunidades estiveram verdadeiramente envolvidas no planejamento e na implantação do projeto. Na época os construtores se mobilizaram com a esperança de obter lucros e abandonaram rapidamente quando eles perceberam que o projeto não era tão lucrativo. O lucro foi o único motivo e não a filantropia.

Os diversos esforços de reabilitação de Dharavi ilustram a complexidade da problemática. Os sucessivos governos e autoridades tem descoberto: ’Reabilitar’ um lugar como Dharavi não é uma questão fácil."

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